Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2025

POEMA TERAPÊUTICO

               Safo, POEMAS E FRAGMENTOS, tradução de Eugénio de Andrade, edição Assírio & Alvim. Eu me permito... Amar e ser amada pela simplicidade de uma vida iluminada, captando a natureza e a poesia instalada nas pequenas grandes coisas do cotidiano. E, com essa permissão, nunca esquecer de colocar a carapuça no cabide, assim como não esquecer dos ancestrais que antecedem a minha força espiritual pra equilibrar a tríade da vida. Eu me permito errar e aprender com estes erros. Me permito exercitar as cores e valores entre o perfume da rosa e o corte da espada. Me permito me conectar com Deus e o Espírito Santo que se manifesta em todas as nuances da vida, assim como preservar o meu Orí na diáspora. Me permito ser feliz com a minha verdade, mas nunca esquecer da metamorfose dessa mesma verdade afiada. Me permito ser íntegra com a bondade até a segunda página de uma relação desrespeitada, assim como me permito me retirar de lugares e relaçõe...

MANIFESTO À CRISTO

                                                            António Gancho, O AR DA MANHÃ, edição Assírio & Alvim. Já tem tempo que eu penso Prudente e sagaz com erros e acertos Nunca me esqueço, Jesus eu sei que essa dor não te representa Mas, eu também sei que encontramos na mesma dor que veleja Entre o corte da espada e o perfume das rosas, nois segue versando O senhor lá do altíssimo e eu aqui na selva de pedra Estamos todos sofrendo juntos e dói o pesar de suportar tudo isso ao vivo   Eu sei que oras por mim, acredito em ti porque tu sempre acreditou em mim Um amor tão puro e límpido fora da mentira e do ganho ,mais reluzente que o sol , entregou em corpo e alma e por isso nada existe fora da mente do todo, consigo enxergar o teu esplendor no cotidiano Obrigada por me abençoar com a poesia, também amo as parábolas e ...

SONETO DO TEMPO

  — André Tecedeiro, no livro “Número de Strahler”. (Editora Do Lado Esquerdo; 1.ª edição [2018]). O tempo passa e eu ainda amo esse sol dourado EU ardo com as labaredas, tenho o corpo quente acordo a noite com um calor que eu nem entendo A minha crônica é uma vida inteira, e de tudo que tanto falam de mim muita poesia e pouca ideia pra lock, até querem inverter o laudo E eu que nunca entendi o abismo de oportunidades E quando eu passo na rua, tem irmão na calçada Dilacera o peito, não deixar de relatar o que os olhos fotografam Minha periferia vivendo o lamento e eu fazendo o cântico desses versos alados Eu não preciso que você valide os fatos A poesia vive em mim, deslizando na palavra pra fazer contato Obrigada Evaristo por me mostrar o caminho,Carolina minhas lágrimas se enchem de potência  Escreviver naturalmente sob a lente da vida me mostrou cada centímetro das coisas que não são vistas Ou melhor que fazem embaçar com a falsa noção de moralismo O meu coração ...

ENCANTARIA

  - Al Berto, Diários, Assírio & Alvim ENCANTARIA                                                                                                                                                          Recado: Aquela noite no Tatuapelas, a rua era só um palco pra toda a sua beleza A preta mais charmosa e foi quando olhei pro momento pra dizer o que sinto E quando resgatei na retina,eu vi a tua formosura, filha de oxum, eletricamente linda Um corte no teu beijo pra molhar a palavra O meu coração em chamas, avistei encantaria na sua áurea Mulher inteligente, fiquei pensando em como o poema conduz pra ...

MAPA SENTIMENTAL DE SOBREVIVÊNCIA

  0 — José Saramago, no livro “Ensaio Sobre a Cegueira [epígrafe]”. (Editora Companhia das Letras; 1.ª edição [1995]). 1° ATO Não tenho luxo nem lápide de mármore, tenho memória — essa é minha eternidade. Retornar pra não esquecer,o meu avô que também passou por traumas, o amor que foi negado e assim respingou a própria dor nos seus afetos, dizia que a chuva era aviso, do tempo em que se lia o céu como quem lia o destino Vinda divina, minha rainha Carmelita, mãe, você é a deusa da minha vida Sou grata por tudo que sempre doou de coração pra me fazer feliz E hoje o Hip Hop me diz : a ancestralidade sempre esteve aqui. Tão viva quanto as rimas, batidas e melodias e a sensibilidade que nunca me deixou sozinha Hoje, leio em rostos brasileiros— mapas sentimentais de sobrevivência. 2°ATO Com os olhos bem abertos pra não piá de Tróia, eu vejo tudo e ninguém me vê Domingo é quando Deus tira folga e entrega a chave da cidade aos ditos malucos poetas de alma livre Aos Mc's, seresteiros,...

RETINA ||

                                          -Ana Costa dos Santos, VOO BREVE SOB O SOL, edição Círculo de Poemas O poema tira uma foto e descreve em palavras Os poemas são como máquinas fotográficas registram fotos do seu sorriso mais belo Guardam na retina pra fazer compressa Tão quente como a noite azul em teus braços Gingar no teu melaço, te quero entre dias e noites dessa cidade manchada Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias Não se perca nas esquinas, não pise na grama  Ame o próximo, peça perdão e volte 7 casas O tropicalismo na pele ,a utopia diária de um país que não se cala Tua presença é canção-tese, teu corpo é manifesto antropofágico come a saudade, engole o concreto, navega em fases Nosso amor tem sido retina, sim — mas também foi piscada, Paradoxo manso com a calma de quem já entendeu que o amor é movimento...

ESCADAS

António Gedeão, OBRA COMPLETA, edição Relógio D’ Água.                            INTERLÚDIO  ESCADAS O corpo em movimento tem o emaranhado dos meus sentimentos São tombos, saltos, quedas e por isso levanto cedo Pular dessa torre nunca foi fácil, quero viver como um passarinho avoado Cantando aqui e pousando ali nas linhas dos meus versos O vento assopra as lembranças, uma fenda de luz aquece o meu coração poético Processos que levam a lugares e andares através do tempo E quando soar a terça parte da noite mais um degrau será superado A vida me mostrou uma escadaria interna, esse é o interlúdio da minha escada. /Juhcruz

ELA PARTIU VI

  — Larissa Telles, no livro “A vida é um café amargo-Deliciosamente amargo”. Amor ,meu grande amor Te quero sem hora marcada como as canções, paixões e palavras Olho no olho de cara lavada, muito fogo,pura água Pela cidade eu vou bebendo da saudade, sentindo o imaginário do nosso contato O sol dourado nunca foi tão lindo, passo por lugares onde nunca estivemos e mesmo assim  te sinto comigo A cidade encantada já não mais tanto brilho E assim eu vou pintando o seu retorno em cada esquina O soul,o jazz ,o blues ,o samba onde te levo comigo Ela nunca partiu ,de fundo a nossa realeza musical a maior das cantigas Me venha sem saber se sou brasa ,lava ou amor escorrido Pretona correria ,brilhante,safada ,tão linda Pergunto-me quem vai me mostrar o beguenaite das unhas? Sem pressa,sem peso ,conversa de bandida com verso, sonetos,desejos e carícias Essa nega malemba me levou pro seu encanto,me deixou na maresia Me levou pro teu sorriso,te dedico esses versos em rimas e melodias Pra m...

ELA PARTIU V

  — Manuel Bandeira, no livro "Belo Belo". (Editora Global; 1.ª edição [2014]) Minha amada, queria trazer-te os versos mais lindos esculpidos no mais íntimo do meu jardim suspenso espero que estes sirvam de boa simetria como nosso corpo pede Um melaço ligeiramente único tipo a noite pingando em asteriscos, corroendo alguns versos correndo alguns riscos sempre riscando esse disco que no meu coração virou samb a Quantas luzes brilham a vista que vale a ida? Prefiro viver o momento pra versar o que sinto e que delicia segue sendo ser fotografada pelos amores que tenho na retina alguns que já não fazem mais sentido, outros que fazem sentir além do tempo olhares, sobejos, gavetas e atravessamentos Amar é um movimento e não posso ser nada com tudo que tenho no peito E assim te amo como as faces do amor que podem mudar e até como o filme que colocamos pra assistir e dormimos no meio Minha pretinha de mel ,ninguém te ama mais que a madrugada Essa noite um pedaço do céu, noss...

Domingas

  CARTA A DOMINGAS — "Receita para a felicidade", de Lawrence Ferlinghetti, no livro "Vida Sem Fim". (Ed. Brasiliense; 1.ª edição [1981]). CARTA A DOMINGAS  Domingas, quanto você ganha pra me encantar? Vale quanto pesa uma nega que aqui passou e quis ficar e fitou num céu que pouco a pouco anoitece e a gente nem soubesse que era fim Na tua pele preta mora um Brasil resistência onde todo dia Domênica domingava num domingo de sol lá na curva do laranja pra tomar uma vitamina Lendo Quintana, Solano e Evaristo, mulher tropicana, linda como o canto do sábia naquelas palmeiras, linda como as canções da minha brazuca e o soar dos ventos Um sopro de contato reunindo energia pra te amar livremente Domingas como quem versa em segredo, escutando um samba de enredo, escrevendo através da vivência E se não fosse essa cidade tentando me matar milimetricamente em cada esquina talvez tivesse mais tempo pra falar das flores e até pra falar de utopia Domingas, tu és o avesso do c...

DOMINGANDO

Emanuel Jorge Botelho, SOMBRAS E OUTROS DISFARCES, edição Averno. Acordo cedo pra salvar os domingos com a Liniker, meus versos cardíacos em chamas, vivência tipo maldita Na corrida do lucro o cheiro é mal de ponta a ponta E na janela do trem chorei pela senhora pretinha voltando do trampo, cansada assim como eu escorada no canto, almejando um descanso Saturada em  fazer mais que o esperado, revisitar o passado, enfrentar os percalços Reflito, despenco na realidade e faço uma oração que guia minha estrada Querido, domingo de poesia e nostalgia, não me deixa desistir das tentativas Reinicia a minha semana com sagacidade e que Deus me livre das fábulas de esopo das grandes massas, esses filhos da puta engomados Não acompanham o meu folego, não enxergam a minha palavra Lá fora o corre é todo dia e do telhado de casa ouço a esperança melodramática embaixo de cada caixa d’água Os domingos são dos artistas, dos que morrem e vivem de amor e dos encontros na praça Domingo dos p...

Domingo

  – Carlos Drummond de Andrade, no livro "Antologia Poética. – 22.ª ed. – Rio de Janeiro Record, 1987. Tudo começou com um sol na moleira dos poetas apaixonados vivos traídos e mortos lembrados, todo dia uma chance de renascer na simplicidade   Das tardes ensolaradas que tanto fazem chover por dentro O domingo numa velha história de quebrada, rua de pedras estreitas Lembro das crianças brincando lá fora, chuta lata, tubaína na sacola, pipa, jogar bola Como Moíses e aquela rocha, mais que real encontrar força na memória fazer do valor uma lição, recontar histórias Cada labareda queima onde o suor escorre, quem não vê cara, não vê corre Quem dera voltar a correr descalço sob o asfalto que abriga tanto descaso É que anda fácil demais ser confundido e ter a vida ceifada o Estado financia a fome e investe no tráfico, depois encena na mídia a falsa guerra  contra as drogas com o meu rosto estampado Meu povo vivendo às margens da violência, eles falam de escolha e no...