CARTA A DOMINGAS
— "Receita para a felicidade", de Lawrence Ferlinghetti, no livro "Vida Sem Fim". (Ed. Brasiliense; 1.ª edição [1981]).
CARTA A DOMINGAS
Domingas, quanto você ganha pra me encantar?
Vale quanto pesa uma nega que aqui passou e quis ficar e fitou num céu que pouco a pouco anoitece e a gente nem soubesse que era fim
Na tua pele preta mora um Brasil resistência onde todo dia Domênica domingava num domingo de sol lá na curva do laranja pra tomar uma vitamina
Lendo Quintana, Solano e Evaristo, mulher tropicana, linda como o canto do sábia naquelas palmeiras, linda como as canções da minha brazuca e o soar dos ventos
Um sopro de contato reunindo energia pra te amar livremente
Domingas como quem versa em segredo, escutando um samba de enredo, escrevendo através da vivência
E se não fosse essa cidade tentando me matar milimetricamente em cada esquina talvez tivesse mais tempo pra falar das flores e até pra falar de utopia
Domingas, tu és o avesso do concreto, é pele viva que abriga um país que não se entrega facilmente Teus olhos, dois faróis acesos, são constelações negras que guiam meu desejo
Domingas, é uma revolução de sol vestida de mulher , teu sorriso tece auroras onde o mundo se acaba em mel, cacau e poema Domingas, você é a liberdade perpétua fumando um na laje da minha casa, bela, puro brilho até depois que o mundo acabe
E mesmo que a cidade te mire com olhos de extermínio, tu devolves poesia Domingas, tu não é só domingo —és todo dia
E por isso creio onde a luz me segue e o lindo entardecer da quebra
Domingas, o amor em movimento diz pra colocar o quanto és no mínimo que fazes
Cada verso, cada beijo, cada encontro, cada pedaço
Domingando a cada semana num grande olhar azul pousado em mim
e minha goteira ainda é a saudade.
/JuhCruz

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