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Domingo

 





– Carlos Drummond de Andrade, no livro "Antologia Poética. – 22.ª ed. – Rio de Janeiro Record, 1987.




Tudo começou com um sol na moleira dos poetas apaixonados
vivos traídos e mortos lembrados, todo dia uma chance de renascer na simplicidade  
Das tardes ensolaradas que tanto fazem chover por dentro
O domingo numa velha história de quebrada, rua de pedras estreitas
Lembro das crianças brincando lá fora, chuta lata, tubaína na sacola, pipa, jogar bola
Como Moíses e aquela rocha, mais que real encontrar força na memória
fazer do valor uma lição, recontar histórias

Cada labareda queima onde o suor escorre, quem não vê cara, não vê corre
Quem dera voltar a correr descalço sob o asfalto que abriga tanto descaso
É que anda fácil demais ser confundido e ter a vida ceifada
o Estado financia a fome e investe no tráfico, depois encena na mídia
a falsa guerra  contra as drogas com o meu rosto estampado

Meu povo vivendo às margens da violência, eles falam de escolha e nos dão os piores cenários
Lá fora o brilho do sol , o sal , as cicatrizes que não saram
Meus versos são pegadas no chão de mármore
Ouço o sino das preces e a sola da pressa ,empunho a lamina ,enfrento essa guerra
Peço paz ao desalento, mas hoje entendo o banzo no peito
O chamado me leva pra casa e até o meu lamento vira poema

Atrás de um belo passeio no parque ,a rua arranha a verdade mais suja da cidade
Não posso deixar de pensar naquele trabalhador prensado na via mortalidade
Faço de tudo pro domingo raiar ao som de Jorge na caixa
O tempo passa, e ainda vejo aquele rapaz lavando roupa na ‘valeta’, um  sentimento de impotência
Não pude fazer nada pra estancar o sofrimento, se Deus é brasileiro mesmo, que tenha piedade do desassossego

Que pena amor, que pena que nem tudo é o mundo se acabando em mel ou o verão de tropicália
Os meus domingos são cartas de um amor tão ridículo quanto não querer ver o teu sorriso magoado
Eu sei, mais uma vez trocando em miúdos como pássaro liberto das grades, somente o sussurro da palavra
que flui inesgotável
Os domingos são assim
recomeços
poemas
e verdades afiadas.

/JuhCruz









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