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MAPA SENTIMENTAL DE SOBREVIVÊNCIA

 

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— José Saramago, no livro “Ensaio Sobre a Cegueira [epígrafe]”. (Editora Companhia das Letras; 1.ª edição [1995]).

1° ATO Não tenho luxo nem lápide de mármore, tenho memória — essa é minha eternidade. Retornar pra não esquecer,o meu avô que também passou por traumas, o amor que foi negado e assim respingou a própria dor nos seus afetos, dizia que a chuva era aviso, do tempo em que se lia o céu como quem lia o destino Vinda divina, minha rainha Carmelita, mãe, você é a deusa da minha vida Sou grata por tudo que sempre doou de coração pra me fazer feliz E hoje o Hip Hop me diz : a ancestralidade sempre esteve aqui. Tão viva quanto as rimas, batidas e melodias e a sensibilidade que nunca me deixou sozinha Hoje, leio em rostos brasileiros— mapas sentimentais de sobrevivência.

2°ATO Com os olhos bem abertos pra não piá de Tróia, eu vejo tudo e ninguém me vê Domingo é quando Deus tira folga e entrega a chave da cidade aos ditos malucos poetas de alma livre Aos Mc's, seresteiros, grafiteiros, mensageiros do talento E eu nessa sina de vagabunda-alado romancista, não escrevo só pra mim —mas pra quem nunca teve um poema, mas foi poema a vida inteira Resultado do sistema, Dona Maria trabalhando mais de 30 anos numa escala assassina a mais valia, pelo fim da escala 6x1 que suga minha vida

3°ATO Me lembro do senhor lavando suas coisas lá na calçada do tatuapelas, pela senhora do Manefa levando o seu fardo em cima da cabeça, mente caótica, um milhão de atravessamentos A poesia nem sempre é bonita , ver os meus em situação de rua dói tanto quanto acreditar na sua mentira A compaixão que você tenta me cobrar, nunca que tu foi no meu lugar, você não precisa entender,eu não vim pra te salvar Eles não entenderiam um terço do problema, brincam com rasgar dinheiro E eu enxergo o sagrado de andar com quem anda comigo, uma sinuca, um dadinho de tapioca e aquela cerveja Um sol pra iluminar a quebrada, o mundão pra nóis sonhar e fé pelas palavras que nunca voltam sozinhas No fim, a verdade que descobri não está em roupa de marca, muito menos no valor da sua conta ou o carro da vez que pode comprar —está na forma como a gente ama além da matéria e se recusa a morrer em silêncio.

/JuhCruz 

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