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Quintal de casa

 

                                        — Fabrício Corsaletti, no livro “Perambule”. (Ed. 34; 1. Edição [2018]).






A saudade é uma criança que corre a solta no quintal de casa
Tipo, joelho ralado e muito sol pra iluminar a quebrada
A pipa no céu são como o sobrevoar das dificuldades, aquilo que você sempre acreditou na curva do laranja
Com saudade de si, saudade da terra, saudade de correr descalço
Aquele gole do filtro de barro, salada com os amigos, puro sal que hoje virou saudade
Mais tarde se deparar com a corrida por minerais não dá para precificar a vida, a mãe da rua agora é a mão invisível do Estado, afaga com promessa e te deixa em nada
Ficar por nada não é a matéria, o abrupto dos prédios, renascer sob o asfalto quente


O sangue que ainda jorra pelos furos, pelas veias de um jornal
Essa cidade manchada não cheira outra coisa senão o medo
 Eu deixo nas tuas escrituras marginais incrivelmente doce e o amargor necessário para seguir em frente
Sonhar é acreditar que dá para ir além, não posso deixar crescer a sombra do fracasso que assombra, todo iluminado gera sombra
Queremos tanto o sol, somos tanto de tudo, ainda bem que há luz no fim do túnel
Quando o chamado ecoa não tem como se esquivar
Prefiro ser o pôr do sol que  sabe nascer e também sabe partir
Para viver não tem receita, as ondas namoram a quebra do mar,
Os teus olhos me deixam a velejar

Se organizar é entender que sem a oralidade não há literatura, eu sou tão literal quanto a rosa ser uma flor ,como o  erro, o sabor e o clamor
Acredito nas energias porque elas regem por mim, assim como nada é solto no mundo
Guardo no peito a água que me pertence, deixo queimar em labaredas
A noite pesa no peito, sou sólida como a partida que deixou saudade, líquida como as lágrimas negras que caem
Fora de mim esse vapor barato, nessa cidade cinza tudo passa tão rápido
Mas, ainda quero uma morada tranquila
Cansei de pendurar sede no quintal de casa.


/JuhCruz

 


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